terça-feira, 2 de agosto de 2011

Há Alterações


Acabei de sair de um ultrasom. Não estou grávida, pelo amor. Fiz um ultrasom da minha pequena e indomável tireóide. Chega uma hora na vida da mulher, e ela não precisa estar véia, sem dente e de bengala, que ela percebe que os seres humanos foram projetados para durar muito menos do que a Claudia e a Marie Clair gostam de nos fazer acreditar. E aos vinte você percebe os primeiros sinais de falha de uma máquina mal acabada e neurótica. Ginecologicamente, você sai do "só para regular o ciclo" e entra no "vamos ter que dar uma analisada nisso aí" (falando da sua vagina).
Eu decretei lá pelos dezessete aninhos de idade que ia continuar vestindo tênis, calça jeans e freqüentando bares onde se bebe cerveja e ouve rock. Mas ninguém me alertou que havia um custo de vida por trás. E se você quer ganhar o bastante para pagar sua cerveja e seu tênis, você precisa abotoar a camisa branca e dar uma escovada no cabelo no horário comercial.
Eu falei que não usaria cremes porque não era uma dondoca. Mas daí há rugas. As rugas são uma coisa subjetiva, acontecem a longo prazo, exigem anos de cuidado. E ninguém até hoje jogou no seu colo provas concretas e derradeiras de que cremes caros combatem a ação do mais cruel dos postulados de Newton. Mas no meu lugar, você gostaria de arriscar?
Ano que vem vamos viajar. Da última vez que viajei fiquei uma semana fora. Se eu tivesse uma dor terrível fora do controle era só dar uma marretada no dedão ou tomar doses regulares de conhaque para resolver o problema. Agora não é mais bem assim. Preciso estar com dentes, rins, ossos, órgãos internos e externos em dia. Isso é um saco, especialmente quando você está na fase onde nenhum "ista" pega sua ficha e seus exames sem ponderar "Hm... Há alterações aqui, Amanda, vamos ter que dar mais uma olhada". E pela minha experiência, aos vinte anos a máquina dá sinais de falha, mas ainda encontra-se no ápice de seu vigor e capacidade de regeneração, de forma que você faz exames, há alterações, o Ista solicita mais exames e análises laboratoriais e ao longo desses meses de agendamento de exames e retornos de consultas e novos acompanhamentos a conclusão é: "Seu problema nem existe mais, mas eu percebi aqui que há algumas alterações...". Isso já aconteceu com meus rins inflamados, com cistos em partes do corpo que eu nem sabia que tinha, problemas na garganta e até mesmo com a mordida na língua que o Ista achou que pudesse ser um câncer maligno no cérebro e me diagnosticou com duas semanas de vida. Na consulta de retorno, a surpresa: "Você não tem mais nada ali, Amanda, mas eu vejo aqui no seu exame de sangue que há alterações no seu sistema subvascular da paratóide vesmimembranosa".
Somando isso tudo à cuidados que ficam entre o estético e o médico, você perde muito tempo e dinheiro, investindo em uma pele de alabastro, uma bunda redondinha, um útero sem rugas, uma cabeça sem enxaqueca. Mas parece que doravante a coisa só tende a piorar.

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